Fantasmagórico. Esse é um termo que costuma ser usado quando alguém descreve o cabo Arkticheskiy, a remota e desolada península russa onde tem início esse périplo pelo Ártico. Ali não há nada além de gelo, que geme como uma porta velha sacudida pelo vento, e de ursos-polares esfomeados atrás de uma refeição - algo em que podemos nos transformar a qualquer momento se não tomarmos cuidado (por isso é bom ter sempre à mão um revólver Magnum calibre 44). Embora esse lugar inóspito no topo do planeta seja bem parecido com incontáveis outros postos avançados na Sibéria, ele se distingue por uma coisa: é o ponto de partida de algumas das mais ambiciosas expedições árticas empreendidas pelos mais radicais exploradores de nossa época - um daqueles locais que são a província exclusiva dos profissionais, afastando até mesmo os mais dedicados amadores para não falar dos exibicionistas da aventura.
Sair dali, atravessar o gelo flutuante e alcançar uma superfície mais sólida para então iniciar a caminhada até o pólo Norte já é algo bem complicado. Dependendo das condições climáticas, essa etapa inicial pode ser relativamente fácil ou uma armadilha fatal. Às vezes, a superfície do mar congela até a beira do litoral; em outras, é preciso enfrentar quilômetros de blocos de gelo instáveis e águas abertas escuras que, em 2004, engoliram uma hábil exploradora francesa, Dominique Arduin, sem que dela restasse o menor sinal. Não são raros os casos de aventureiros que têm de ser transportados pelo ar até o gelo sólido ou então resgatados após horas aflitivas.
Nos primeiros meses de 2006, seis expedições haviam planejado partir do cabo Arkticheskiy. Um explorador solitário simplesmente abandonou a idéia assim que se deu conta do que teria de enfrentar, e três outras equipes tiveram de ser levadas de helicóptero até um trecho de gelo mais seguro. Duas expedições enfrentaram o desafio: a equipe formada por Børge Ousland e Mike Horn, que pretendia percorrer 965 quilômetros até o pólo Norte - na escuridão do inverno polar -, e o explorador solitário Thomas Ulrich, que iria cruzar o oceano Ártico desde a Sibéria até o Canadá, uma distância de 1 931 quilômetros, mas, algum tempo depois, com os dias já luminosos.
De tez clara, alto e magro, com braços longos e musculosos, cabelo cor de canela, o circunspecto Børge, 43 anos, era conhecido, entre outras coisas, pela forma obsessiva e meticulosa com que planejava suas explorações; era um exemplo perfeito da calma escandinava. Já o moreno e sardento Mike, 39 anos, naturalizado suíço mas nascido na África do Sul, musculoso e com pernas de gigante, tinha um espírito ebuliente e inquieto - mais parecia um touro diante de um pano vermelho. Com 39 anos, Thomas Ulrich, um suíço troncudo e falante, de riso fácil, com olhos azuis cintilantes que deixavam transparecer um espírito indômito, era obcecado em segurança e tinha a paixão pelos detalhes típica de um guia alpino profissional.
Os três decidiram fazer as coisas da maneira mais difícil: nenhuma das duas expedições contava com equipe de apoio. Nada de trenós com cães nem reabastecimento no meio do caminho, com helicópteros trazendo equipamentos, comida ou combustível. Eles tinham de estar preparados da melhor maneira possível para enfrentar circunstâncias que prometiam ser imprevisíveis: ventos frontais cortantes, falta de visibilidade por causa de nevascas, temperaturas de 40oC abaixo de zero, ursos-polares, banquisas, trechos de mar aberto. Muitas vezes o gelo se apresenta como um mosaico de ilhas separadas por canais de água. Tais canais são conhecidos como "veios", e podem transformar-se em dor de cabeça para um explorador do Ártico. Ao topar com um deles, a primeira coisa a fazer é encontrar um ponto de contato entre os dois bancos de gelo; se não houver nenhuma passagem, será preciso saltar, ou então cruzar o canal em um bote inflável ou ainda nadar com um traje impermeável, que é vestido sobre as roupas e as botas, prendendo o ar de tal modo que a pessoa vira uma bóia (essa foi uma invenção de Børge).
Para deslocar-se sobre o gelo, eles usariam esquis, arrastando tudo o que poderiam precisar. Cada homem vestiria uma espécie de arreio, com o qual puxariam em fila indiana dois trenós em forma de cápsula que se tornariam mais leves à medida que consumissem os suprimentos. Os trenós podiam flutuar e eram dotados de lâminas para a neve. O equipamento incluía barracas, fogareiros, sacos de dormir e, claro, alimentos embalados a vácuo, assim como foguetes de sinalização, revólveres Magnum 44, telefones por satélite, baterias de reserva, computadores de bolso e aparelhos de GPS. Mike e Børge também levariam lanternas presas à cabeça com baterias de lítio para locomover-se no escuro. Todos os três se manteriam em contato com Victor Boyarsky, que, baseado na Rússia, havia ajudado no planejamento das expedições e ficaria a postos para qualquer eventualidade. A cada dia, Hans Ambühl enviava da Suíça informações sobre as condições climáticas que os esperava mais à frente, com base em dados fornecidos pela Agência Espacial Canadense.
Børge e Mike foram os primeiros a partir, na escuridão de janeiro. Thomas deixou o cabo Arktcheskiy em março, em sua saga solitária.
No início é sempre assim
Os exploradores costumam dizer que, em uma região tão inóspita como o Ártico, ainda um dos lugares menos conhecidos do planeta, correm risco de vida desde o instante em que dão o primeiro passo, e depois é só uma questão da intensidade do perigo a que estão expostos. E foi esse o caso da primeira etapa da expedição de Børge e Mike ao deixarem o cabo Arkticheskiy sob a total escuridão do inverno polar.
Tentaram seguir adiante, depois de terem sido levados até o cabo por um helicóptero, mas logo toparam com um paredão de gelo na costa, deslocando-se diante deles na direção errada. Decidiram passar ali a primeira noite, apavorados na barraca, mas felizes com o fato de pelo menos estarem ambos vivos. Aí Børge escutou algo.
"Mike, é você?"
"É, estou comendo um pedaço de chocolate."
Então ouviram o ruído de tecido sendo rasgado - fwaap! - e logo em seguida surgiu a cabeçorra de um urso-polar. Mike e Børge recuaram e o movimento assustou o animal. Ele afastou-se, levando alguma comida, e os dois tiveram de persegui-lo e disparar o foguete de sinalização para recuperar os suprimentos.
Quando chegou a hora de dormir, Mike garantiu a Børge que ficaria desperto e atento, tal como fizera em expedições anteriores - por exemplo, os meses que passou descendo o rio Amazonas em uma prancha de hidrospeed ou percorrendo toda a linha do equador. Mas não resistiu: mergulhou logo no sono e começou a roncar. Børge foi obrigado a passar a noite em claro.
"Mike, como você consegue pegar no sono?"
"Se a gente se preocupa, morre. Se não se preocupa, também morre. Então, de que adianta se preocupar?"
Na noite seguinte, a barraca foi sacudida com tanta força pelo vento que eles não ouviram um urso arrastar para longe o bote de borracha. Só notaram isso pela manhã, ao encontrar o bote a 90 metros dali, todo mastigado. Perderam horas consertando o estrago. Duas noites, dois ursos.
Segundo Hans Ambühl, com base nas imagens de satélite que recebia na Suíça, o gelo parecia estar-se deslocando para o sudeste - a direção errada - a uma velocidade de quase 1 quilômetro por hora. Eles tiveram de usar o bote remendado para atravessar alguns veios traiçoeiros e afastar-se da costa, e acabaram montando o acampamento para a noite alguns quilômetros além. Ao acordar, viram que se haviam deslocado mais de 14 quilômetros, mas na direção oposta ao pólo.
A maré de azar continuou nas duas semanas seguintes, com tudo à volta deles se revelando o oposto do que haviam previsto. Em vez do clima gélido, enfrentaram uma onda de calor siberiano - com temperaturas entre 5oC e 10oC abaixo de zero. No lugar de ventos amenos, seus rostos eram fustigados por ventos cortantes e contrários. Em vez de se moverem em sentido favorável, os bancos de gelo os carregavam para cada vez mais longe do pólo. Dia após dia marchavam para o norte, mas durante a noite eram levados de volta à Sibéria enquanto dormiam; o máximo que conseguiam era manter sua posição.
Havia apenas poucas semanas para que o Sol da meia-noite se erguesse no horizonte e iluminasse a região durante seis meses ininterruptos. O plano deles era chegar ao pólo antes disso, mas naquele ritmo jamais conseguiriam. E os suprimentos não seriam suficientes. Por isso, passaram a caminhar mais e a comer menos.
No começo tiveram de nadar muito - até cinco ou seis vezes por dia - para cruzar os canais entre as ilhas de gelo. "Tudo o que fazíamos era nadar, nadar, caminhar, nadar de novo, avançando pouco a pouco para o norte", conta Mike. Isso implicava tirar os esquis, guardá-los, vestir os trajes impermeáveis por cima de todas as roupas pesadas e as botas, e depois entrar com cuidado na água de modo a não haver nenhuma infiltração na altura do pescoço e afinal puxar para a água os trenós, que no início pesavam juntos 154 quilos. Quando não estavam na água, esquiavam no que parecia ser um túnel, com tudo obscurecido além do pequeno cone de luz produzido pelas lanternas em suas cabeças.
Não dava para depender apenas do aparelho de GPS, pois ele consumia muita energia das baterias e seu mostrador costumava congelar e tinha de ser aquecido em seus bolsos. Por isso, só o usavam de quando em quando, orientando-se, em vez disso, pela direção do vento (em parte, determinada pelas tiras flexíveis pregadas aos bastões de esquiar), pela Lua e pelas estrelas, e também pela habilidade de Mike em ler as marcas de deslocamento da neve. Segundo ele mesmo, aprendera esse "método tradicional" com um inuit da bacia Foxe, no Canadá, chamado Simon, que "me ensinou todas as diferenças na aparência da neve". A neve que cai, a que se move na superfície, a que é revolvida pelo vento; as diferentes espessuras da neve: na altura do joelho, dos ombros, da cabeça. A acumulação de neve se dá sobre o gelo e, à medida que o vento se intensifica, o monte vai crescendo. Quanto maior o acúmulo, maior a velocidade do vento. E esta, por sua vez, reflete a velocidade de deslocamento do gelo e a rapidez com que poderia romper-se. Mike era capaz de atingir com o esqui a crista endurecida de antigos acúmulos de neve, permitindo que os seguissem rumo ao norte envoltos pela escuridão.
Por vezes tudo o que conseguiam fazer era manter os olhos focalizados na ponta de seus esquis por mais uma hora, mais um minuto, mais 1metro, pois de nada lhes serviria pensar além disso. Era enfim uma das experiências mais inacessíveis a uma pessoa - a de viver plenamente no momento presente. Onde estou? O que devo fazer? Ainda posso sentir meus dedos? E ficavam felizes ao se verem vivos na barraca ao fim do dia.
Qual o sentido disso?
Esse tipo de inferno, evidentemente, era exatamente o que estavam buscando. Afinal, os dois são profissionais. Eles têm patrocinadores - fabricantes de equipamentos para esportes radicais, construtoras, uma agência de turismo de aventura, uma companhia de relógios - e, na verdade, vivem dessas aventuras. Não é que planejaram levar esse tipo de vida; tudo foi decorrência de fazer o que mais gostavam. Mas, após descobrirem que podiam ganhar a vida assim - escrevendo livros, fazendo fotos, realizando filmes e, sobretudo, dando palestras motivadoras -, trabalhando com o que mais lhes tocava o coração, o que mais podiam querer?
Os três vêm se dedicando a esse tipo de aventura desde a infância, enfrentando riscos progressivamente maiores, e, em determinado momento, cruzaram um limiar que selou seu destino. Para eles, a busca deliberada de situações extremas que talvez pareçam insanas é, na verdade, conseqüência lógica de toda uma vida.
Ninguém, por exemplo, decide caminhar até o pólo Norte em sua primeira aventura; um início mais provável é o do próprio Børge, que cresceu esquiando e vagando pelas montanhas da Noruega. Trabalhou como mergulhador para uma companhia petrolífera no mar do Norte, onde às vezes permanecia durante semanas no fundo do oceano, em uma câmara pressurizada, inspecionando plataformas. Serviu na Marinha norueguesa, em uma unidade de elite. Sua primeira expedição foi uma travessia a pé pela Groenlândia, com dois amigos mergulhadores, há 20 anos, numa época em que não havia aparelhos de GPS nem telefones por satélite - eles contavam apenas com sextantes, algodão, lã e outros equipamentos similares aos usados por Fridtjof Nansen e Roald Amundsen, os grandes exploradores polares do passado que eram conterrâneos de Børge. Ele foi contagiado pela febre da aventura. Nessa primeira expedição, fez questão de arrumar botas que eram réplicas daquelas usadas por Amundsen em 1911 ao caminhar até o pólo Sul.
No caso de Mike Horn, o momento crucial em sua vida, segundo ele, ocorreu quando deixou sua cidade natal, Johannesburgo, na África do Sul, e mudou-se para a Europa. Atleta talentoso que participava de provas de fundo e de triatlo e jogava rúgbi de maneira quase profissional, ele sonhava com competições internacionais, talvez até com os Jogos Olímpicos. Mas a situação política da África do Sul, na época isolada da comunidade internacional por causa do apartheid, tornava isso impossível. Aos 18 anos, foi convocado para servir no Exército sul-africano e, como membro das forças especiais, lutou contra guerrilheiros comunistas em Angola. Mais tarde, completou um curso universitário e depois foi trabalhar em um negócio de frutas e legumes de seu tio. Mas, insatisfeito com a monotonia dessa vida, não via a hora de sair para o mundo. Um dia decidiu desfazer-se de suas coisas e tomar um avião para o primeiro país que o aceitasse - a Suíça -, onde arrumou um emprego de lavador de pratos em um hotel. Lá viu neve pela primeira vez, aprendeu a esquiar e virou professor de esqui; em seguida, guia de canoagem em corredeiras; e dedicou-se a vôos de parapente (no Peru, sofreu uma queda feia nos arredores de Machu Picchu). Depois de descer todo o rio Amazonas durante cinco meses deitado em uma prancha, ele tornou-se aventureiro em tempo integral.
Thomas Ulrich cresceu nas montanhas em torno de Interlaken, na Suíça, onde escalava, acampava, esquiava e participava de competições. Além do montanhismo, dedicou-se ao parapente antes que o mundo ouvisse falar desse esporte. Chegou a trabalhar um pouco como marceneiro, mas sentia-se entediado e inquieto. Como costumava fotografar durante suas perambulações pelas montanhas, um dia resolveu enviar uma delas a uma revista, e os editores a publicaram. Foi aí que percebeu que poderia ganhar dinheiro fazendo o que gostava. Fez curso para tornar-se guia internacional de montanhismo e abriu uma escola de parapente, ao mesmo tempo que continuava a investir em sua carreira de fotógrafo de aventura. Com cerca de 18 anos, fez a primeira de uma série de viagens à Patagônia, com o objetivo de escalar o célebre monte Fitz Roy, de 3 352 metros, e foi essa viagem - sobretudo os preparativos, a nova cultura, a vida ao ar livre - que lhe abriu as portas ao mundo das expedições radicais.
A idéia de que esses homens têm um desejo de morte é algo que eles mesmos acham engraçado. Não é a vontade de aproximar-se da morte o que os instiga, insistem eles - mas a de aproximar-se da vida. Eles já chegaram ao topo. Sabem que a força de vontade pode ser cultivada, que pessoas comuns, como eles próprios, têm uma capacidade bem maior do que supõem. São eles que estão lá fora, explorando a natureza em nome de todos nós. Não contribuem para melhorar as cartas geográficas - uma tarefa há muito encerrada. O que agora estão traçando é o mapa interno, o mapa dos pensamentos e das emoções.
O que vão aprender a respeito deles mesmos numa situação em que nada mais importa além de permanecer vivo? Do que é capaz o ser humano? É isso o que os motiva.
Parceiros improváveis
Para Mike e Børge, a expedição logo se revelou tão importante no plano interpessoal quanto no geográfico. Com dois machos dominantes dividindo uma barraca, eles tiveram de encontrar um modo de convivência. Antes da expedição, mal se conheciam. E ali, no Ártico, não conseguiam ver as feições do outro na escuridão, reconhecer suas expressões faciais (as lanternas de cabeça eram outro incômodo nesse sentido). Qualquer desentendimento, após um dia exaustivo de esforços para permanecer vivo, podia explodir de maneira imprevisível e consumir uma energia que nenhum deles podia desperdiçar. Assim, no começo, ambos tenderam a ruminar sozinhos suas queixas quando afinal descansavam no fim do dia, limpando luvas e botas de costas um para o outro, cada qual em seu lado da barraca.
Uma das questões a serem resolvidas referia-se às necessidades fisiológicas no interior da barraca. Mike havia trazido um recipiente de alumínio de "uso múltiplo", que poderia servir tanto de panela como de penico, um sistema que já usara antes no Ártico. Após forrar o recipiente com um saco plástico, sentava-se sobre ele, fazia o que tinha de fazer, colocava o saco para fora até o conteúdo congelar, esvaziava o saco e este ficava completamente seco. O sistema lhe parecia engenhosíssimo. Børge, contudo, não era da mesma opinião. Fazer as necessidades na barraca, algo que jamais fizera, até que era aceitável, desde que Mike e ele se revezassem. Porém, usar o mesmo recipiente como penico e panela para aquecer água e cozinhar era algo inconcebível para ele.
Børge também preferia seguir métodos rígidos, os quais já haviam comprovado sua eficácia em suas expedições polares anteriores. Ele era meticuloso com o equipamento, a forma de preparar o desjejum, o modo de montar e desmontar a barraca. Em um lugar como aquele, a margem de erro era quase zero; qualquer equívoco poderia ser fatal. Mike, por outro lado, estava grato por partilhar da experiência de Børge no pólo Norte. A idéia da expedição partira de Børge, e este estava no comando. No entanto, o emotivo, orgulhoso e teimoso Mike - veterano e habituado a fazer as coisas a seu modo - tendia a mostrar-se incomodado e na defensiva quando o outro lhe dizia o que fazer ou como fazer. Certa noite, após um dia especialmente longo e cansativo, uma das estacas da barraca rompeu-se enquanto Mike a montava, e Børge o recriminou. Mike tinha certeza de que não forçara nada - a estaca simplesmente não resistira à força dos elementos - e ficou chateado com o companheiro.
E ali estavam eles: uma improvável dupla no Ártico, obrigados a permanecer juntos no meio daquela imensidão gelada.
Depois desse tenso episódio, os dois tiveram de sentar-se na barraca para uma conversa de cavalheiros. Mike então disse a Børge que, embora o respeitasse muito, nem sempre concordava com o jeito de ele se colocar ou de entender como as coisas deveriam ser feitas - Børge dava a impressão de ser muito rígido e, às vezes, até mesmo arrogante. Este explicou que os escandinavos não eram de muita conversa. Os noruegueses, por exemplo, não ficam dizendo "desculpe-me" a todo momento. Apenas fazem o que têm de fazer, em silêncio e da melhor maneira possível, e esperam que os outros ajam do mesmo modo. Os comentários que Mike havia recebido como críticas não passavam, para Børge, de conselhos. No fim, perceberam que o principal problema entre eles fora a comunicação precária e se comprometeram a ser mais receptivos um ao outro.
Børge por fim aceitou uma xícara do café de Mike, os dois trocaram suas refeições (alimentos pré-cozidos, liofilizados e embalados a vácuo, como batatas, frango, carnes de vaca, cordeiro e rena; cada qual tinha seu próprio menu). E até mesmo chegaram a um acordo na questão do banheiro: tanto um como o outro instalaram uma porta entre a tenda interna e a externa. Por vezes, um deles fazia uma piada sobre a situação e ambos riam. Os dois aprenderam a desfrutar de tais momentos, pois, no resto do tempo, eles bem o sabiam, iriam enfrentar muitas dificuldades.
Apenas o desespero polar normal
Algumas semanas depois, o vento mudou de direção, e afinal passaram a avançar constantemente para o norte em condições mais favoráveis. Tudo o que tinham de enfrentar agora eram os perigos usuais associados ao que estavam fazendo: caminhar nas trevas, sem qualquer visibilidade e sem poder divisar o terreno. Atravessar uma zona de compressão onde montes de gelo com mais de 5 metros de altura bloqueavam o caminho. Cruzar de gatinhas e com os trajes impermeáveis um veio de 365 metros coberto por uma fina camada de gelo. Nesse caso, os polegares de Mike ficaram enregelados e Børge teve de colocar bolsas de água quente nas botas para evitar que seus pés congelassem.
Depois de seis ou sete semanas, o Sol, embora oculto, já estava perto o bastante do horizonte para iluminar a paisagem, e já não mais precisavam da luz das lanternas na cabeça. O pólo Norte estava à vista, a cerca de duas semanas de distância. Foi aí que Børge começou a receber inquietantes mensagens de texto em seu telefone por satélite a respeito de Thomas Ulrich. Lembra-se de Thomas? Ele acabara de deixar o cabo Arkticheskiy, com a intenção de ir da Sibéria para o pólo e de lá para o Canadá. Børge havia conversado com ele por telefone para informá-lo de que eram boas as condições de gelo e vento que iria enfrentar. Mas as mensagens indicavam agora que algo dera errado e que Thomas estava à deriva em meio a fortes ventanias. Børge tentou ligar para o suíço a fim de lhe dar apoio moral, mas o telefone de Thomas estava desligado ou ocupado. Børge sabia o quão difícil era deixar para trás a turbulência costeira do cabo Arkticheskiy, mas não imaginava que fosse algo de mais sério, apenas o desespero polar normal.
Quando é melhor ficar na barraca
A vida de Thomas passou a correr perigo assim que deixou o cabo. Primeiro, tivera de passar sozinho cinco noites turbulentas em Arkticheskiy, à temperatura de 34oC abaixo de zero, esperando que o gelo se formasse na costa e lhe permitisse afastar-se com os esquis enquanto ficava atento à aproximação de ursos-polares.
Por fim Thomas recebeu notícias animadoras de Hans Ambühl, o administrador de sua expedição, um tipo magro e intelectual que, de seu posto na cidade suíça de Interlaken, interpretava as imagens enviadas por satélite e encaminhava relatórios tanto para Thomas como para Børge e Mike. As imagens indicavam que haveria um breve intervalo propício - 10 quilômetros de gelo sobre o mar, precário mas de travessia possível, algo que teoricamente levaria um dia -, e Thomas animou-se com a chance. Além disso, havia a previsão de um vento norte favorável que poderia empurrar o gelo bom para perto da costa e fechar os veios. Ele imaginou que, se as condições se mostrassem piores que o previsto, sempre lhe restava o caminho de volta para a costa. Assim, juntou suas coisas e partiu, no amanhecer de uma quinta-feira de março, arrastando dois trenós amarelos que pesavam juntos 170 quilos.
O começo até que foi fácil. Mas os veios próximos à costa haviam-se ampliado durante a noite, e o melhor que pôde achar estava com 90 metros de largura. Como, na outra margem, o gelo parecia mais velho e estável, ele inflou o bote de borracha e começou a remar. Uma fina camada de gelo logo o bloqueou e ele teve de entrar na água com o traje impermeável. Ao romper o gelo com o corpo enquanto arrastava os trenós, feriu-se na virilha. Quando chegou à outra margem, constatou que o gelo era fino demais e havia água em torno: estava em uma ilha flutuante do tamanho de três campos de futebol. Ele teria retornado ao cabo, mas o vento afastava cada vez mais da costa o bloco de gelo. A situação não era nada boa; porém, como não tinha outra opção, montou acampamento para ali passar a noite.
De manhã, um vento noroeste empurrava o bloco de gelo para sudeste a uma velocidade preocupante. Era uma área de blocos de gelo que se moviam com rapidez, incluindo aquele em que estava. Ocorreu-lhe que talvez fosse o caso de solicitar um resgate de modo a reiniciar sua expedição. No entanto, ainda não estava apavorado, longe disso. Foi então que caiu a tempestade.
Ele passara nada menos que dois anos se preparando para esse grande momento, reunindo seu equipamento, captando 250 000 dólares com patrocinadores, melhorando sua forma física com exercícios, como o de arrastar pneus por trilhas montanhosas nos Alpes suíços. Agora estava naquela situação: sozinho, encolhido em sua barraca, fazendo ligações desesperadas no telefone espacial para Hans na Suíça e Victor na Rússia, que estavam tentando organizar um plano alternativo. Ele estava apenas a alguns quilômetros da costa quando caiu a tempestade. Como eles não perceberam sua aproximação?! E agora nem mesmo havia neve para escorar a barraca - ele teria de usar os sacos com alimentos - e, se abrisse a porta, o vento uivante iria inflá-la como um balão e catapultá-lo para o céu. De tempos em tempos, o vento conseguia insinuar-se por baixo da barraca, e Thomas sentia-se flutuar momentaneamente sobre o gelo, como se estivesse em um tapete voador pronto para decolar. A única coisa que mantinha a barraca no chão era o seu próprio corpo, e só lhe restava permanecer sentado ali, tentando ficar cada vez mais pesado.
O que estou fazendo aqui? Só pensava em sua mulher e nas filhas. Como pude fazer isso com elas?
As paredes amarelas da barraca estavam cobertas de desenhos familiares: o coelho da Páscoa, uma fogueira, sua rede de dormir - e alguns anjos. Ali estava um sujeito que acha que depois da morte não há mais nada - "eles apenas enterram a gente no cemitério e aí vêm os vermes" -, mas, pensando bem, seria melhor se viessem os anjos. Já imaginava as filhas chorando na igreja em seu funeral e as pessoas comentando o quanto havia sido cretino e quantas besteiras fizera durante sua vida. Não conseguia fazer nada "por diversão". Não podia ser apenas um marceneiro, como havia tentado, que praticasse o montanhismo nas horas de folga, como todo mundo na Suíça? Não, ele tinha de fazer suas escaladas sob as piores condições climáticas, ou então enfrentar a traiçoeira rota Ferrari, no Cerro Torre, Patagônia, em pleno inverno ou ainda atravessar a pé o Campo de Gelo Meridional, também na Patagônia. Sempre houve a possibilidade de que um dia poderia não voltar para casa. Agora, sozinho em uma barraca fustigada pela tempestade ártica, ele se perguntava se esse dia não teria chegado.
É possível ficar ainda pior?
Bem, ali estava ele, aninhado em sua barraca sobre o gelo, resistindo à tempestade. Estava escuro e o gelo começou a romper-se: o bloco onde se abrigara logo começou a diminuir de tamanho, de três campos de futebol a menos de um campo. Não dava mais para ficar no saco de dormir. Depois de vestir as botas, prendeu uma mochila ao seu traje - que continha telefones por satélite, baterias de reserva, um transmissor de sinais de emergência (também via satélite), alimento para três dias, fogareiro e água - para o caso de a situação piorar e ele ser obrigado a saltar para outro bloco de gelo. No meio da noite, quando o bote inflável começou a voar pelos ares e ameaçou levar junto a barraca à qual estava amarrado, Thomas não teve outra alternativa a não ser soltá-lo e vê-lo desaparecer no céu escuro.
Ele mantinha contato com Hans, mas as imagens do satélite agora de pouco serviam. Depois que o satélite completava sua órbita e as imagens eram transmitidas e processadas, na melhor das hipóteses havia um intervalo de quatro horas. E, como não podiam ser transmitidas diretamente para Thomas no Ártico, elas nada tinham a ver com o que ele enxergava com os próprios olhos.
De repente, ele foi tomado por uma estranha sensação. Mas não podia abrir o zíper da barraca externa (que não tinha piso) e olhar lá fora, pois temia que o vento entrasse e a arrancasse do chão com ele dentro. Por isso arrastou-se por baixo dela e então, na escuridão, foi atingido por uma lufada de água que o deixou empapado.
Só então Thomas percebeu o que estava acontecendo. A apenas 1 metro da barraca o gelo se rompera e ele estava ondulando junto à borda. Então, diante da barraca abriu-se nova fissura, e depois uma terceira e uma quarta bem debaixo de suas coisas. O campo de futebol estava desintegrando, e não demorou para que se visse em um bloco de gelo com pouco mais de 8 metros quadrados. Acionou então o transmissor de emergência, agarrou os esquis e, tateando no escuro, começou a procurar onde o gelo parecia mais sólido, oscilando como se estivesse em uma balsa.
Aos berros, muito nervoso, chamou Hans. "Vou morrer! Arrume um jeito de me tirar daqui!"
Enquanto isso, na Rússia...
O resgate teria de ser organizado por Victor Boyarsky, o talentoso administrador e quebra-galho da expedição de Thomas na Rússia, um explorador polar de primeira ordem, experiente, um homem repleto de humor, confiança e vigor, e um mestre em lidar com a burocracia do setor aeronáutico russo. Na condição de diretor do Museu Estatal Russo do Ártico e da Antártica, sediado em São Petersburgo, Victor é muito bem relacionado, e naquele momento provavelmente teria de acionar seus vários contatos.
Thomas havia reservado 140 000 dólares de seu próprio dinheiro - sob a forma de garantia bancária - para facilitar o acesso a recursos caso precisasse ser resgatado. Mas isso não significava que um helicóptero e uma tripulação ficariam a postos durante toda a sua expedição. Dois helicópteros haviam permanecido nas cercanias do cabo Arkticheskiy por alguns dias, até que ele estivesse em segurança, longe da costa. Mas o tempo estava tão ruim, e Thomas tivera de esperar tanto por condições favoráveis, que, assim que deixou o cabo, os helicópteros haviam, por motivos de custo, retornado à sua base na cidade de Norilsk - distante mais de 1 350 quilômetros. Agora havia procedimentos a seguir, normas a cumprir, autorizações militares a obter. Já era noite, e os pilotos de helicóptero não tinham permissão para fazer vôos noturnos. Em seguida, o vento recrudesceu, mas de qualquer modo tinham de esperar até o amanhecer.
Victor explicou a situação para Thomas. Monte novo acampamento com o que restou do antigo, aconselhou ele, e tente manter-se aquecido. Nessa altura o vento se acalmara e o gelo não estava se movendo muito - a tempestade dera uma trégua. Assim Thomas retornou à barraca, arrastou os trenós até o novo lugar e os prendeu aos esquis em uma espécie de catamarã; agora teria onde ficar caso fosse lançado em águas abertas. Os pacotes de alimento e outros equipamentos haviam sido dispersos pelo gelo durante a tempestade, e um urso-polar já estava farejando tudo. Ele teve de disparar sua arma três vezes em direção ao urso para que este se afastasse.
Estava ao lado do catamarã, com o 44 na mão, quando amanheceu e a luz lhe permitiu enxergar ao longe - e o que viu foi uma imensa extensão de água não muito distante. Era como se estivesse sentado à praia, na beira do mar. Ondas batiam nas bordas de seu bloco de gelo, derretendo-o aos poucos. Ele oscilava entre o pânico e a calma. Gritava, xingava, chorava, rezava e então voltava ao trabalho: observava o gelo, verificava o equipamento, mantinha-se junto ao fogareiro.
Ainda não ligara para a família. Ainda não recobrara sua compostura normal e não queria assustar ninguém. Thomas duvidava que sua mulher, Asta, filha de um fazendeiro norueguês, conseguisse lidar com a situação, e que ele próprio fosse capaz de enfrentar o pânico dela.
O ponto de vista da Suíça
Em casa, Asta já desconfiava que algo havia ocorrido. Thomas vinha ligando para ela todos os dias. Agora, porém, só falava com Hans; quando ela perguntava algo a Hans, este dizia apenas que alguma coisa não ia muito bem. Era óbvio para ela que Hans estava escolhendo com muito cuidado as palavras. Por fim, a escritora Christine Kopp, amiga íntima do casal e que acompanhara Thomas à Sibéria, contou tudo a Asta. Christine ligou para Thomas e lhe disse que ligasse sem demora para Asta. Quando os dois afinal conversaram, ele tentou explicar-se: as péssimas condições do gelo, a proximidade da água, a tempestade inesperada. Aos prantos, ele dizia que não sabia se iria sobreviver àquela noite. Asta disse-lhe que não se culpasse e que não precisava justificar nada. "Concentre-se apenas em sair vivo daí", disse ela. "Não se preocupe conosco." Assim que desligaram, porém, ela mal conseguia respirar.
Não demorou para que os meios de comunicação ficassem sabendo da terrível situação em que se encontrava Thomas: "Explorador Suíço em Corrida contra a Morte". Ou alguma outra manchete parecida. As meninas - Linn, de 11 anos, Silje, de 9, e Julie, de 5 - ficaram mais quietas que o normal, como se não fizessem questão de saber mais. Para protegê-las, Asta cuidou para que não vissem os jornais, manteve desligados o rádio e a TV, e levou-as para visitar um museu em Berna, o Sensorium, tentando distraí-las da perspectiva de nunca mais reverem o pai.
Proibido comer, beber e dormir
Depois de falar com Asta, Thomas decidiu que não podia deixar na mão sua família, que sempre o apoiara de maneira incondicional. Ele concluiu: "Simplesmente não tenho como deixar de voltar para casa". Em seguida, fez algo estranho. Retornou à barraca no antigo acampamento e, em vez de recolhê-la, recortou os desenhos feitos por suas filhas e sua mulher nas paredes do compartimento interno. Embora estivesse fazendo todo o possível para sobreviver, uma parte dele já se preparava para morrer.
É isto o que irá me ajudar agora, e isto é o que levarei comigo se morrer.
Pela terceira vez, a noite caiu sobre ele e o bloco de gelo. O saco de dormir e tudo o mais estavam molhados, e seu único abrigo era o compartimento externo, e sem piso, da barraca. Ele não pregara no sono nem poderia fazer isso. Queria comer, mas acabara a água e não havia neve boa para derreter. Como estava sobre um bloco de gelo de água do mar, a neve logo absorvia o sal. Ele vinha usando o pouco de neve que conseguia recolher das dobras da barraca e do topo dos trenós. E, para piorar tudo, estava com diarréia. "Vou dormir um pouco", disse ele a Victor durante uma das ligações. Só por 15 minutos.
"Não, não, nem pense nisso!", gritou Victor. "Você não pode pegar no sono! Ligue para mim a cada dez ou 15 minutos!"
Thomas pegou a caixa de isopor que seu pai fizera para ele armazenar as baterias, uma confortadora lembrança de casa, e passou a noite toda e o dia seguinte sentado nela. Fazendo chamadas telefônicas, tentando entender o que fizera de errado, e pensando sobre o sentido de sua vida.
Fazendo as coisas acontecerem à moda russa
Nessa altura, os helicópteros de resgate haviam decolado de Norilsk. Mas levaram oito horas para chegar à base aérea da ilha Sredniy, a 90 minutos de vôo do local em que estava Thomas - e, na hora em que chegaram e foram reabastecidos, já escurecera e, portanto, eles não tinham autorização para decolar. Conseguir que os pilotos saíssem para salvar Thomas era uma questão delicada, pois o que Victor lhes pedia era algo muito perigoso. Mas ele também sabia, pelas ligações de Thomas a cada 15 minutos, que naquele momento as condições climáticas eram favoráveis. Se deixassem o vôo para o dia seguinte, elas bem que poderiam mudar.
Em determinado momento, os pilotos aceitaram voar, mas os responsáveis pela empresa aérea continuavam relutantes. Embora voar no Ártico seja arriscado, os pilotos russos estão acostumados com isso. Mas gerentes e burocratas não gostam nada de riscos adicionais, sobretudo quando se trata de uma operação - no caso, o vôo noturno - fora das normas. A empresa temia colocar em perigo dez pessoas, duas tripulações com cinco membros cada uma, para salvar uma única vida. Victor passou horas ao telefone, implorando, argumentando, alertando. "Se vocês não forem lá, Thomas vai morrer. Ele só vai agüentar mais um pouco sem água, sem dormir, neste frio. A qualquer momento o gelo pode romper-se e aí ele vai para a água!" Eram ligações para deus e o mundo, para gente nos mais variados fusos horários, em meio a todas as dificuldades de comunicação nas regiões mais remotas do Ártico, despertando pessoas no meio da noite e recorrendo a todos os seus contatos. Uma confusão medonha.
Enquanto isso, Thomas continuava a ligar, cada vez mais desesperado. "Faça alguma coisa. Tire-me daqui!", implorou. "Agüente mais uma hora", respondeu Victor. "Ainda tenho de fazer mais algumas ligações."
Por fim, Victor, segundo seu próprio relato, conseguiu falar com o "chefe" da empresa aérea e pressionou-o com um argumento poderoso: a história de Thomas já estava em todos os meios de comunicação. Se ele morrer, disse-lhe Victor, porque você não permitiu o vôo noturno, depois terá de se explicar com muito, muito cuidado. O mundo inteiro estará de olho.
A próxima chamada que Thomas recebeu foi esta: "Passe a posição exata, eles estão a caminho".
Thomas fez uma pilha com a barraca, o cobertor e outros equipamentos inflamáveis, e encharcou tudo com combustível. Quando ouviu os helicópteros, ateou fogo à pilha, que se transformou em uma bela fogueira. Os holofotes dos dois helicópteros convergiram para ele, desaparecendo e reaparecendo em meio à névoa, e passaram direto, provocando nele um momentâneo ataque de pânico que só diminuiu quando fizeram uma larga curva para retornar. Enquanto um dos aparelhos pairava no alto, o outro baixou suavemente até quase tocar a superfície do gelo. Thomas saltou na portinhola e eles o puxaram para dentro. Era 1 da madrugada, e ele passara nada menos que quatro dias sobre o bloco de gelo.
A arrancada final
Só quando estava acabando o pesadelo de Thomas, é que Børge se deu conta da gravidade da situação, pois recebera mensagens em seu telefone enviadas por três pessoas diferentes. "Ligue para o Thomas, por favor! É urgente. " E, então, por fim: "O resgate deu certo".
Nessa altura, Børge e Mike estavam avançando sempre para o norte com a ajuda do vento, no meio de uma onda de frio que baixou a temperatura para 40oC negativos. Seus rostos estavam tão recobertos de gelo que era difícil encontrar um buraco por onde levar o alimento à boca, e nessas pausas nem sequer podiam tirar as luvas, sob risco de congelar os dedos. Por algum tempo, vinham caminhando pela borda de um comprido veio, sem nenhuma visibilidade por causa das nevascas, considerando o modo como fariam a arremetida até o pólo. Se esquiassem 12 horas por dia, em vez das dez horas planejadas, imaginaram que talvez conseguissem terminar a jornada antes da chegada do Sol da meia-noite.
Após alguns dias concluíram que seria impossível esquiar as duas horas adicionais com apenas seis horas de sono sob condições tão favoráveis; por isso, retomaram as dez horas diárias, conformando-se com o objetivo de chegar ao pólo, como disse Børge, "de maneira digna".
Mas havia uma preocupação: Mike começou a notar que apenas meia hora de percurso o deixava exausto. Os trenós pareciam cada vez mais pesados, e não mais leves. Passou a ter calafrios, dificuldade para comer e hemorragias na boca e no nariz. Aquele cara que nunca reclamava de nada, segundo Børge "o mais durão" que já conhecera, de repente estava se queixando - de dores nas costas e nos rins e de sangramento quando defecava. Para Mike, as pessoas costumam desistir cedo demais, mas ele sabia que há momentos em que convém parar. Quando Børge lhe perguntou se não achava melhor desistir, Mike não hesitou: "Não. Nunca vou desistir".
Eles deduziram que a infecção, ocasionada por várias feridas e queimaduras de frio - quando apertava os polegares, escorria pus das unhas de Mike -, disseminara-se por todo o seu corpo. Ele, porém, recusava-se a tomar os antibióticos que Børge levara. Mike odiava pílulas, e os vasodilatadores que tomava para ativar a circulação do sangue não estavam fazendo efeito.
Børge, por sua vez, imaginava como seria se Mike entrasse em coma. Resolveu ligar para um médico na Noruega, e este lhe disse que aquilo não parecia nada bom, perguntando onde estava o helicóptero mais próximo. (Victor acompanhava o caso e preparava-se para a possibilidade de enviar de pára-quedas um médico caso Mike piorasse.) Por fim, Mike concordou em tomar o antibiótico - uma dose dupla três vezes ao dia.
O derradeiro temor
Para piorar as coisas, Hans os avisou de que uma tempestade estava se formando, e de que teriam de chegar ao pólo antes de ela desencadear. Por isso decidiram apressar-se - na medida do possível. Børge assumiu a responsabilidade por arrastar a barraca e realizar a maior parte das tarefas. Também sugeriu que Mike seguisse na frente, estabelecendo o ritmo, embora isso fosse muito cansativo - era preciso definir o caminho e se concentrar na rota. Como Mike não queria parecer fraco, não disse nada. Ele precisava repousar, mas como estavam a poucos dias do pólo, onde seriam resgatados por um helicóptero, não se arriscaria a sugerir tal coisa, e, se Børge a mencionasse, seria obrigado a recusá-la. Por isso, seguiu adiante, avançando como um robô e parando vez por outra para descansar, apoiado nos bastões de esqui.
"Børge, a neve também está com uma aparência rosada para você?"
"Acho melhor montarmos o acampamento."
"Não, não, vamos cumprir a cota do dia."
E assim fizeram, durante dez horas a cada dia, no qual percorriam 24 quilômetros, à medida que o antibiótico finalmente começava a fazer efeito e Mike recobrava as forças.
Cerca de dois dias antes da data em que esperavam chegar ao pólo, o Sol surgiu avermelhado no horizonte. Era 20 de março, início da primavera. Teria sido bom chegar ao pólo antes disso e reivindicar oficialmente a primeira travessia até o pólo Norte realizada do início ao fim durante o inverno. Por muito pouco eles perderam esse recorde. Mas o que fizeram continua sendo um dos mais ousados feitos polares que se conhece: a partida em meio à escuridão completa; a superação, nadando e esquiando, dos perigos em torno do cabo Arkticheskiy; a sobrevivência, tanto física como mental. Essa foi a essência da expedição. O modo como Mike superou a infecção. Ou como Børge teve de improvisar novos esquis depois que o seu par quebrou. Dois sujeitos tão vigorosos, originários de culturas diferentes, tornando-se uma equipe ao partilhar de objetivo comum. Alcançar o pólo Norte era uma conclusão necessária, mas, curiosamente, irrelevante.
Em uma quinta-feira, 23 de março de 2006, Børge verificou seu aparelho de GPS: o pólo Norte estava a cerca de 900 metros de distância. "Eu já estive ali", disse Børge a Mike. "Mas você não. Por isso vá na frente." Mike, contudo, reagiu, incisivo: "Não, não. Conseguimos isso juntos".
No fim, esses improváveis companheiros aproximaram-se de seu destino um ao lado do outro, exaustos e queimados do frio, mas ainda inteiros. Lá no topo do mundo, em meio à fúria dos elementos, as verdades fundamentais haviam se tornado evidentes: as coisas mais importantes na vida são a família, os amigos, a honestidade, a beleza e o amor, e o percurso é de fato mais importante que a chegada - lições que sempre são proveitosas para os seres humanos, e das quais eles jamais se cansam.
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